Reforma na Casa da Classe Média
- 11 de nov. de 2015
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A classe média quer uma casa mais confortável Mais prática, bonita e espaçosa Planeja Sonha Orça E acredita. Os pedreiros começam Prometem um dia ir embora Mas eles não vão. A classe média precisa morar na reforma Cada semana muda o colchão para um cômodo diferente Assiste televisão do lado de pacotes de pregos e de interruptores Sente o ar gelado das janelas sem vidros Respira a poeira Procura objetos na escuridão E tropeça nos restos do forro de garapeira Na reforma da casa, a classe média perde pequenos objetos, Não sabe mais onde está o controle remoto da televisão, a conta de luz, o adaptador da tomada, o guarda-chuva, e inventa uma vida improvisada. Na reforma da casa, a classe média se descuida da rotina, Descobre que todos os baldes da lavanderia são recipientes para limpar pincéis, Que panos e restos de caixas de papelão sujam o quintal, Que aquela estimada faquinha de serra foi usada no rejunte dos azulejos, E que já não existe mais varal. Na reforma da casa, a classe média toma café em xícara sem pires, Saboreia sua refeição no canto de um banco ao lado de caibros e torneiras, Toma banho em um banheiro com farpas de madeira, E se esconde em um cômodo desabitado para não perder as estribeiras. Na reforma da casa, o casal classe média briga, se estranha, se cansa e não se ama. Ao longo da reforma da casa, a classe média adquire sentimentos menos nobres, Odeia todas as formas de pedreiros, mas os trata com respeito, pois o abandono é seu maior receio. Os ouvidos cansados das marretadas, pedem por favor para continuar, porque quanto mais marretadas penetrarem nos ouvidos, menos esta insanidade vai durar. A classe média é engraçada Para um pouco de luxo, muito desconforto O dinheiro escorre que nem água limitando os sonhos daquela casa imaginada. Um dia tudo isso será passado, e uma linda e imperfeita casa se terá, para reconciliar com os sentimentos de 'despaixão' que haverão de acabar.



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