Zé Virado - Epílogo
- 10 de out. de 2015
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Basta eu te chamar pelo nome três vezes que a praga acaba?
Minha irmã, olhando-me com lágrimas nos olhos,disse com pesar: -Infelizmente não! Sem que a benzedeira soubesse, a irmã da bruxa lançou uma outra praga que prolongou minha agonia. Era assim:
“Não adianta só achar o seu irmão, E ele chamar três vezes Conceição. Pro encanto acabar, Uma prova de coragem ele vai ter que dar”.
Respirando fundo, Zé Virado olhou para os amigos e continuou: A partir daí não me alembro de mais nada. Quando acordei, estava novamente na praia de Moçambique. Deixei minha pescaria de lado e comecei a correr que nem cavalo de bandido, só parando quando cheguei em casa. Os pescadores, olhando para Zé Virado, começaram a falar baixo uns com os outros, custando a acreditar na história e foram indo embora, um por um, desconfiados do amigo e das bruxas que rondavam o lugar. Seu Maneca, conhecendo o amigo, espichou a já avantajada barriga, tomou um gole de café e olhando para o baixinho de modo desconfiado, perguntou-lhe: Zé , tua acreditas nessa história??? O contador de histórias, em tom indignado, disse que sim, jurando por tudo o que é de mais sagrado. Seu Maneca sentou-se servindo-se novamente de café. Sorveu um grande gole. Acendeu o cigarro que havia apagado em seus dedos e disse: Acho que tenho a solução para a prova de coragem! O baixinho franzino, que não era dado a corajoso, remexeu-se nervosamente enquanto seus olhos esbugalhados de aflição esperavam pelas palavras do amigo. Pausadamente, como era de seu costume, Seu Maneca começou a falar:
- Há muito tempo atrás, vivia na Ilha do Arvoredo, um homem que fazia Vida Santa. Este homem era na verdade um Monge que, afastado das lidas do dia a dia, viveu rezando e fazendo remédios. Além dos remédios, também fazia benzedeira e era dado a fazer encantamentos para quem, por uma boa causa, fosse pedir ajuda. O lugar passou a ser conhecido como a Gruta do Monge. Numa noite de Lua Gorda, o monge desapareceu .Diz a lenda que nas noites de lua cheia, o Monge costuma aparecer, para ver se está tudo como ele deixou e dar a benção para alguma alma perdida. A prova de coragem que tens que dar é partir sozinho, numa noite de Lua cheia até o Arvoredo e passar a noite na Gruta do Monge, rezando para que ele apareça. Se o Monge aparecer, certamente ele vai ajudar tua irmã, acabando com o encantamento. Ao terminar de falar, Seu Maneca despejou o resto do café no fogo e disse para o amigo! - Ninguém pode falar deste assunto até a próxima lua cheia, que é depois de amanhã. Se uma das bruxas souber desta história, pode querer atrapalhar. Zé Virado engoliu em seco e amuou um sim apavorado! Ao fechar o galpão, Seu Maneca olhou para o amigo de forma fraterna, entendendo agora todas as tristezas e bebedeiras que o baixinho franzino passou durante sua vida.Foram para casa em silêncio. Passados dois dias do acontecido no galpão, Zé Virado, lá pela tardinha, enchendo-se de coragem,pegou um pequeno bote e dirigiu-se até a baleeira que estava fundeada. Ligou o motor da baleeira e, sem despedir-se de ninguém, rumou para o Arvoredo com o coração cheio de esperança e a cabeça cheia de medo. Lá chegando, enveredou pelas furnas até achar a Gruta do Monge. Sentou-se e escutou um barulho insistente que lhe encheu de medo. Com o ouvido mais apurado, percebeu que era o barulho de seus dentes que não paravam de bater uns nos outros.. Rezou um Padre Nosso e um a Ave Maria e benzeu-se umas dez vezes seguidas, pedindo a Deus que o ajudasse nesta empreitada. .Já era quase meia-noite e nada do monge! Estava quase indo embora quando escutou um barulho de gente atrás de uma pequena moita. De mansinho o medroso foi escorregando lentamente o olhar, quando uma voz grossa, que vinha de trás dele, disse: QUEM ESTÁ AÍ ? Quem está aí? Zé Virado não esperou a voz terminar a frase e caiu feito pitanga madura no chão, mijando-se todo. Olhou para trás com um rabo de olho e viu uma figura enorme, vestido como um padre. Imediatamente, como todo bom medroso, ajoelhou-se em frente à figura, pedindo perdão, perdão e mais perdão. A figura soltou uma gargalhada e pediu para o baixinho se acalmar. Zé Virado, custando a acreditar no que estava acontecendo foi se acalmando ao mesmo tempo em que olhava para todos os lados como se procurasse uma saída para correr dali. O Monge, percebendo o que estava acontecendo, puxou um pano e deu para Zé Virado se enxugar, ao mesmo tempo em que falou:
Já sei da história e vou te ajudar, Há muito tempo espero por esta ocasião, Só tens que repetir por três vezes, O nome Conceição. Quando isto acontecer, Um barulho vais escutar, Não deves ter medo e nem se apavorar, É tua irmã que vai sair do mar.
Dito isto, o Monge desapareceu, deixando Zé Virado sem saber o que fazer. Só depois de algum tempo, começou a lembrar o que tinha escutado, e então percebeu que tudo estava prestes a acabar. Encheu o peito de ar e tomado o maior fôlego, gritou três vezes ainda com a voz afinada de medo: conceição! conCEIÇÃO! CONCEIÇÃO! Ao pronunciar o nome da irmã, a Gruta do Monge começou a tremer e um olho d’água formou-se nos pés de Zé Virado, que pulou para uma pedra próxima, esperando os acontecimentos. Nesta altura tinha perdido todo o medo que lhe acompanhou por toda a vida e olhava, cheio de felicidade, o olho d’água crescer até ficar do tamanho de uma pessoa. Um pequeno raio de lua cheia iluminava a Gruta do Monge e Zé percebeu a figura de sua irmã dentro da bolha de água que acabara de se formar. Como se fosse mágica, e na verdade o era, a bolha desfez-se e sua irmã apareceu por completo. Zé Virado, tamanha a emoção, desmaiou. Já era dia quando, esfregando os olhos, viu sua irmã sentada e olhando fixamente para ele. Os dois, sem acreditar que tudo estava acabado, abraçaram-se fortemente durante um bom tempo. Sem dizer nada, embarcaram na baleeira e rumaram para os Ingleses. Quando chegaram, encontraram Seu Maneca, Dona Candinha e Manequinha esperando por eles. Aos poucos os pescadores e suas famílias foram se ajuntando e desejaram as boas vindas para Conceição ao mesmo tempo que batiam levemente nas costas de Zé Virado, como a pedir desculpas por todas as galhofas e brincadeiras que tinham feito com o baixinho. Conceição, que era uma moça bonita e a idade não tinha passado para ela como tinha passado para os outros, casou-se com Manequinha e hoje é mãe de duas lindas meninas, que pacientemente estão aprendendo o ofício de bruxa. Seu Maneca aposentou-se de vez das lidas da pesca e passou o serviço para o filho que já comprou até um novo barco. Até hoje ninguém pergunta como é que Seu Maneca achou a solução para o encanto. Dona Candinha, avó de nove netos, vive visitando as noras, sem mais nada para fazer. Zé Virado por sua vez, largou da bebida e dizem, está arrastando as asas para uma viúva que mora na Vargem do Bom Jesus. Duas vezes por ano, na véspera de lua cheia, Zé Virado encomenda uma novena para a alma do Monge da Ilha do Arvoredo, que dizem, continua a aparecer por lá de vez em quando.



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