Zé Virado - A História - Parte II
- 10 de out. de 2015
- 5 min de leitura

Zé Virado tinha um ritual que se repetia. Posicionava-se estratégicamente com a luz da fogueira iluminando de forma fantasmagórica seu corpo franzino, fazendo com que sua sombra fosse projetada nas paredes do velho galpão de forma grandiosa. Tirava lentamente seu chapéu de palha, começava a enrolar um pequeno e fino cigarro de palha pousando-o no canto direito da boca com a mão direita. A mão esquerda, passava lentamente sobre os fios de cabelo ainda pretos, fato surpreendente para alguém de sua idade. Dava uma longa tragada, projetando a fumaça do cigarro sobre a fogueira em uma única baforada, aumentando o suspense da história que estava preste a contar.
Alguns pescadores, em tom de galhofa, pediam pelo amor de Nossa Senhora dos Navegantes, que o baixinho não mentisse, pois já estavam cansados de tantas mentiras. Zé Virado não se importava com as brincadeiras e começava a falar em voz baixa e quase ininteligível, buscando sabiamente o silêncio de todos. Aos poucos as vozes se aquietavam, com todos os olhos voltados para o baixinho franzino. Seu Maneca, apesar de conhecer o amigo há muito tempo, surpreendia-se com a capacidade do amigo em conseguir a atenção de todos.
Subitamente, daquele corpo franzino, como se fosse tomado pelo “demo”, emergia uma voz grave e possante, capaz de silenciar até os latidos dos cachorros que rondavam o galpão.
Como se não estivesse falando para ninguém, avisava para todos que a história que ia contar era a mais pura verdade verdadeira. Enquanto falava, media o grau de atenção de cada um dos amigos, exigindo-lhes com o canto do olho a maior atenção possível.
Começou a narrativa, com o galpão no mais absoluto silêncio e cheio de atenção:
“Estava eu pros lados do Moçambique soltando um espinhel de pandorga, numa manhã cinzenta de segunda-feira. A pescaria não estava rendendo nada. Não sei o que estava faltando. A isca era boa, o anzol era o certo, a linha era forte, o vento ajudava, mas nada de peixe. Fiquei nesta lida por umas duas horas e nada. Já estava desistindo quando assoprou, de repente, um vento contrário estranho e quente. Imediatamente, ouvi meu nome repetido duas vezes: Zé Viraaaado! Zé Viraaaado! Pensei que era alguém me pregando uma peça atrás dos eucalipteiros. Olhei demoradamente e nada. Meio desconfiado ainda, imaginei que devia ser a fome que estava me chamando. Abri a térmica e puxei um pãozinho com manteiga que preparei antes de vir pescar e comecei a comer. O vento parou de repente, fazendo com que eu largasse o café e o pão, para aprumar a pandorga. Quando estava com a linha na mão, o vento mudou de direção e começou a soprar de uma maneira tão forte que cai na areia, com a linha se enroscando na minha mão. Estava me levantando quando senti um puxão que foi me arrastando prá dentro d’água. Tentei me desenroscar da linha, mas a danada estava presa de tal maneira, que foi impossível me soltar. Fui sendo arrastado prá dentro d’água como se fosse um pedaço de papel. Fiquei apavorado e gritava sem parar pedindo por ajuda. E fui indo pra dentro do mar, sendo arrastado pelo vento. Não sabia mais o que fazer. Já estava encomendando minha alma. Foi quando escutei novamente no meio daquela confusão, uma voz que dizia: Não tenha medo! Não tenha medo! Naquele momento, achei que já tinha morrido e a voz que escutava era da minha falecida mãe”.
Ao escutarem Zé Virado falar no nome da mãe, todos os olhos se arregalaram de surpresa, pois nunca antes o tinham ouvido falar de sua mãe, falecida há 39 anos. A atenção na história redobrou, com Seu Maneca acendendo um cigarro, coisa que só fazia quando estava muito nervoso.
“Continuei sendo arrastado sem saber pra onde ia. Já estava perto do Santinho, quando de repente o vento aumentou mais ainda e me foi levando, somente com as pontas dos pés na água, em direção ao mar alto. Não sabia mais o que fazer e fui, como se fosse um afogado, deixando-me levar por aquela força estranha. Devo ter sido arrastado por algumas horas, pois me alembro de avistar a ilha do Arvoredo.
Foi quando, disse gravemente, fui puxado pra dentro d`água com uma força que nunca vi antes. Não tive tempo nem pra tomar fôlego. Entrei de cabeça pra dentro d`água, indo direto pro fundo do mar, bem perto da ilha do Arvoredo. Me alembro que acordei dentro de uma caverna, deitado sobre uma pedra grande e lisa com a água em volta de mim sem me molhar. Achei que tinha morrido e comecei a chorar que nem rapaz pequeno. Pensei em um monte de coisas que não tinha feito e deixei de fazer. Enquanto chorava, percebi que minha cabeça estava sendo acariciada de uma forma que não me lembrava mais. Levantei-me de repente achando que além de morto estava louco. Olhei para trás e vi a figura de uma mulher com o rosto branco e cabelos bem pretos, vestidos com uma roupa branca, toda bordada com fio de prata. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto. Enquanto ainda estava admirando a beleza daquela aparição, tratei de me benzer e pedir perdão pelos meus pecados. Foi quando a moça, com a voz mais bonita que alguém já ouviu, olhou para mim e disse: Não se preocupes que não estás morto. Não precisa pedir perdão por nada. Tudo isto que estás vendo está acontecendo de verdade. Não precisa ter medo de nada. Olhei demoradamente para a aparição sem entender nada do que estava acontecendo e perguntei assustado: Quem é a Senhora? Como posso ter certeza de que não morri? A moça, sorrindo de forma bondosa, disse-me: Eu sou tua irmã Conceição. Sem acreditar em mais nada, disse para a moça que nunca tive irmã. Como poderia ser aquilo? A moça, então, de forma mais carinhosa ainda, pediu para eu me acalmar. As palavras da moça de branco eram tão suaves e tão cheias de bondade, que imediatamente uma paz de espírito tomou conta de meu corpo. Nada mais me importava, a não ser escutar o que ela tinha para me dizer”.
Seu Maneca e os outros pescadores olharam para o contador de histórias e perceberam claramente pequenas lágrimas escorrendo de seus olhos miúdos. Podia-se ouvir o silêncio da noite, tamanha a atenção na história de Zé Virado. Um dos pescadores aproveitou a pequena pausa, para colocar mais lenha na fogueira e servir todos de café. O bule quente despejava em cada caneca a expectativa da continuação da história. Seu Maneca não estava acreditando no que ouvia. Custava a compreender o que estava acontecendo. Controlando a ansiedade, nenhum dos pescadores apressava Zé Virado.



Comentários