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Histórias de Zé Virado - Parte I

  • 10 de out. de 2015
  • 4 min de leitura

“Seu” Maneca, como era conhecido Manoel de Almeida, era pescador da comunidade dos Ingleses do Rio Vermelho há cerca de 53 anos bem vividos ao lado de Dona Candinha, nascida Maria Cândida da Silva. Seu Maneca e Dona Candinha casaram na igreja da pequena comunidade em uma cerimônia simples e tiveram seis filhos homens. Não quiseram mais ter filhos com medo que o sétimo, se fosse menino, virasse lobisomem. Coisas da Dona Candinha, que Seu Maneca meio desconfiado, aceitou. Moravam em uma pequena casa de madeira, que anos mais tarde, recebeu um “puxadinho” de tijolo, onde foi construída a cozinha e um banheiro com chuveiro elétrico, que era religiosamente ligado aos sábados e dias especiais. A casa era simples, mas confortável o bastante para abrigar os seis filhos homens e o casal, além de Zé Virado, um pescador baixinho, franzino, que era o melhor amigo de Seu Maneca desde os tempos da juventude.

Zé Virado tinha este apelido pois era mesmo virado da breca. Além de ser um péssimo pescador e ter medo do mar, era um excelente contador de histórias. Seu Maneca acolheu o amigo, depois que seus pais morreram de forma misteriosa em uma pescaria de corvina. Alguns pescadores antigos dizem que foi praga de uma “bruxa” que vivia atormentando o casal para ter mais um filho. Como o casal não atendeu os pedidos da bruxa, ela rogou uma praga pedindo que o mar engolisse o casal. São histórias que nunca tiveram comprovação, mas todos evitavam falar do assunto quando Zé Virado estava perto.

Dona Candinha, em princípio, não aceitava a idéia de um amigo da juventude do marido por perto. Tinha medo que os dois aprontassem coisas com as raparigas da vida que, de vez em quando, aportavam na pequena vila dos pescadores. Aos poucos, vendo que Zé Virado não levava o marido para a gandaia e que só gostava de contar prosa, aquietou-se, aceitando sua presença.

Zé Virado era prestativo com todos da casa, ajudando muito Dona Candinha nas lidas da casa, bem como na pequena plantação de milho, mandioca, café e amendoim que tinham no fundo do quintal. Também tinham um galinheiro com cerca de 12 galinhas e um galo carijó brabo que só vendo. O galo carijó tinha uma implicância com o baixinho, que a pedido de Dona Candinha, ia procurar ovos escondidos pelo terreiro. Era só Zé Virado aparecer que o galo partia pra cima dele, com as asas e o bico aberto, conseguindo de vez em quando umas boas bicadas. Seu Maneca ficava escondido olhando o amigo se estrepar e soltava boas gargalhadas quando ouvia os nomes feios que o amigo soltava para o galo. O patriarca,que no início da vida, vivia embarcado nas baleeiras dos outros, com a ajuda dos filhos homens já crescidos, prosperou e possuía duas baleeiras e várias redes de pesca, o que lhe garantia um sustento digno para sua família, agora reduzida a quatro pessoas. Seus filhos casaram-se e foram morar por conta, com exceção do quinto filho, o Manequinha, que não dava jeito de casar-se. Só pensava em dançar na domingueira e escutar música de doido. Seu Maneca não reclamava, pois o filho o ajudava muito em coisas que não entendia muito bem. Cuidou de conseguir uma aposentadoria para o pai, que, bem ou mal, contava com aquele dinheirinho para pagar as contas de luz e da loja de pesca que abastecia o pescador de redes, bóias e outros apetrechos para a lida diária. Era pouco, mas era bom.

Manequinha vivia provocando Zé Virado para casar-se, indicando de vez em quando uma viúva para o baixinho. Nessas ocasiões, Zé Virado ficava uma fera e, muitas vezes, sem explicação nenhuma, saía e não aparecia por muitos dias.

Seu Maneca cansou-se, sem dizer nada em casa, de buscar o amigo deitado na praia, com uma garrafa de pinga vagabunda vazia na mão, falando um monte de bobagens nos seus delírios de bêbado. Nessas horas, como se estivesse sonhando, dizia um monte de bobagens que não faziam sentido nenhum. Ficava delirando, sempre falando de um fantasma que via caminhando na praia. Ele não conseguia entender o velho amigo, mas também não o recriminava, pois achava que tinha algo a ver com a morte dos seus pais.

Nessas horas, Seu Maneca sentava-se ao lado do amigo, olhando-o com curiosidade e perguntando-se o que poderia o ter levado a beber daquele jeito, mas nada perguntava ao amigo.

Depois que voltava destas andanças, Zé Virado vivia pelos cantos olhando para o nada, como se buscasse alguma coisa que havia perdido e que ainda tinha esperança de encontrar. Dona Candinha rezava uma novena pelos pais do amigo e aí as coisas se acalmavam, além do sermão no filho, pedindo-lhe para não arreliar mais o amigo.

Zé Virado vivia de pequenos ganhos proporcionados pelo conserto de redes, ajudas em arrastões e de um pequeno, mas modesto salário que Seu Maneca, bondosamente, pagava para o amigo, no intuito de trazer-lhe dignidade.

Sua maior alegria era, quando nos finais da tarde, sentava-se juntamente com Seu Maneca e outros amigos e ficavam a contar histórias enquanto consertavam as redes. Nessas ocasiões, apesar de ter 51 anos, corria como um menino atrás de lenha para fazer uma bela e confortante fogueira. Eram nessas horas que o baixinho fazia jus ao nome. Suas histórias de bruxas e fantasmas prendiam a atenção de todos, além de deixar todos com uma pulga atrás da orelha, cheios de respeito e medo.

Zé Virado tinha um ritual que se repetia. Com a luz da fogueira iluminando de forma fantasmagórica seu corpo franzino e projetando sua sombra nas paredes do velho galpão de forma grandiosa, tirava lentamente seu chapéu de palha, começava a enrolar um pequeno e fino cigarro de palha, pousando-o no canto direito da boca enquanto o segurava com a mão direita. Com a mão esquerda, passava a mão lentamente sobre os fios de cabelo ainda pretos, fato surpreendente para alguém de sua idade. Dava uma longa tragada, projetando a fumaça do cigarro sobre a fogueira em uma única baforada, aumentando o suspense da história que estava preste a contar.


 
 
 

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