Eu aturei!
- 10 de out. de 2015
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Eu aturei grandes inconsequências vindo da sua parte. Aturei desaforos, gritos, telefonemas noturnos desesperados, risos desenfreados de deboche, esbarrão quando você me encontrava com alguém nos lugares. Aturei a dor do desgosto quando você falava de mim pra alguém. Aturei quieta, meus amigos eram os suspiros, esses sim me aturaram. Aturei sua luta diária contra a sua vontade de mim, aturei até mais que você se aturava. Peguei a sua dor, sofri sem culpa. Sofri por viver angustiada. Por ter uma parte sua que vivia inquieta e eu não sabia quando ela ia trombar comigo na rua. Era como uma síndrome, síndrome de você. De repente me via assim, aturando, enfraquecida. Ataque cardíaca, eu tinha. Eu ria, mas eu não sabia mais se eu era feliz, ou se eu era triste. E cansava de me perguntar, se isso poderia ser amor? Porque amor não se explica e era exatamente isso que você fazia. Por mais que eu tentasse, que eu deixasse a porta aberta, você não explicava o que acontecia, simplesmente tinha prazer na dor. Aturei, aturei e aturei.
Aturei todas as suas formas agonizantes de não conseguir dizer "eu te quero." Se você quer mais amor, por que você simplesmente não diz? Ninguém vence uma guerra de sofrimentos. Não vencemos. Esse sim é o verdadeiro significado de sair do armário. O amor sempre precisou sair do armário.
Perdemos, nos perdemos por medo de sairmos do armário. Aquele armário no porão do coração, fotografias velhas recortadas na memória, o quadro de tudo que poderia ter sido, e as lembranças das palavras que guardamos ali, empilhadas.
Hoje a gente não se fala mais. Normal. Normal? Não, não é normal. Mas é o que acontece, quando deixa de acontecer. Hoje eu não preciso mais te aturar. E confesso: sentirei eternamente a saudade de tudo que não existiu.



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